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Complicações no parto, hérnias de disco, dentes do ciso, dores nas costas e nos pés. A mesma seleção natural que permitiu à espécie humana sobreviver por milênios também é responsável por boa parte do sofrimento que a acompanhou durante todo esse tempo


  



O ser humano não é um projeto acabado. Ele é produto de milhões de anos de seleção natural: uma sucessão de mudanças genéticas aleatórias que ajudaram na sobrevivência do indivíduo e se acumulam no DNA da espécie. As mudanças são lentas e nem sempre levam em conta o bem-estar do indivíduo. A prova disso está no próprio corpo do Homo sapiens — mais precisamente, nas falhas desse corpo. A dor de dente, a hérnia de disco, o joanete e o complicado parto humano são algumas das mostras de que o homem surgiu a partir de uma enorme sucessão de tentativas e erros — e não foi feito para durar muito. "Desde Darwin sabemos que não somos perfeitos. A evolução produz função e não perfeição. Para a espécie se desenvolver, basta que o organismo sobreviva o suficiente para passar seus genes adiante", afirma Jeremy de Silva, antropólogo da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, que apresentou uma palestra sobre o tema no Encontro Anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, realizado entre os dias 14 e 18 de fevereiro em Boston, nos Estados Unidos.
As falhas de projeto começam na própria fundação do corpo humano: o esqueleto. As espécies das quais o homem descende andavam sobre as quatro patas. Quando os ancestrais humanos passaram a se locomover sobre os dois pés, adquiriram imensa agilidade e ganharam uma liberdade inédita para suas mãos. Mas, para isso, sua coluna vertebral teve de passar por um rearranjo radical. "A coluna de nossos ancestrais se organizava na horizontal. Quando ficamos bípedes, tivemos de empilhar todos os ossos que estavam nessa coluna, e ainda colocamos a cabeça no topo. Fazer com que esse novo arranjo seja capaz de equilibrar todo o peso do corpo é pedir para ter problemas", diz Bruce Latimer, antropólogo na Universidade Case Western Reserve, nos Estados Unidos, que também participou da palestra.
A dor na região lombar, por exemplo, está entre as mais comuns da espécie humana — 80% dos adultos vão senti-la em algum momento da vida —, e é causada diretamente por essa postura bípede. Segundo o antropólogo, a coluna humana adquiriu uma série de curvas para equilibrar todo esse peso, resultando em um formato de S. Isso faz com que alguns pontos acabem sofrendo mais pressão que outros, podendo levar à lordose, cifose e escoliose, transtornos que acontecem, respectivamente, quando a coluna vertebral se curva demais para dentro, fora ou para os lados, podendo provocar dor de forma crônica.
Thinkstock
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Ao contrário dos outros primatas, a coluna humana possui uma série de curvas para equilibrar o corpo bípede
A espinha pode ser danificada pelo próprio modo como os seres humanos se locomovem: colocando um pé para frente de cada vez e mexendo as mãos de forma inversa, para manter o equilíbrio. "Ao fazer isso, torcemos a coluna milhões de vezes ao longo da vida”, diz Bruce Latimer. A torção constante pode levar ao deslocamento de um dos discos cartilaginosos que formam a coluna. Se esse deslocamento pressionar um dos nervos locais, a dor pode se tornar insuportável — é a hérnia de disco. Segundo o antropólogo, nenhum desses problemas é comum entre os outros primatas, que ainda mantêm a locomoção sobre as quatro patas. Essas dores são parte da condição humana.
Sofrimento antigo — Segundo os pesquisadores, se um engenheiro tivesse de desenvolver o corpo humano, o resultado seria totalmente diferente do atual. Um exemplo disso é o formato de seu pé. "O pé do atleta paralímpico Oscar Pistorius é um exemplo de um órgão bem projetado: feito de uma simples lâmina, desenhado para suportar o peso e perfeito para o movimento", diz Jeremy de Silva.
O pé humano, ao contrário, não surgiu de uma prancheta, mas é o produto modificado de seus ancestrais primatas. Ele é uma estrutura móvel, formada por 26 peças — os ossos — presas em seus lugares pelos ligamentos e músculos. "É o equivalente evolutivo a clipes de papel e fita adesiva", diz de Silva. Se o pé se mantém assim até hoje, é porque cumpre sua função, sustentando todo o peso do corpo e permitindo enorme mobilidade. No entanto, as consequências disso são entorses no tornozelo, inflamações nas plantas dos pés, pés chatos e joanetes".
Nenhum desses problemas, das dores nas costas às dos pés, é causado apenas pelo estilo de vida moderno. Mesmo que o sedentarismo e o uso de calçados possa piorar grande parte dessas condições, nenhuma é causada unicamente por isso. Diversos fósseis antigos apresentam indícios de que o corpo humano sempre possuiu uma série de defeitos intrínsecos. "Lucy, o famoso fóssil de um Australopithecus afarensis que viveu há mais de três milhões de anos, já apresentava sinais de problemas na coluna", diz Bruce Latimer.
Pode parecer estranho o fato de esses defeitos serem tão antigos e, mesmo assim, não terem sido eliminados durante a evolução da espécie humana. Mas a maioria desses problemas só aparece tardiamente na vida do indivíduo, perto dos 50 anos, passada sua idade reprodutiva. A partir do momento em que ele já transmitiu seus genes para a geração seguinte, a seleção natural deixa o indivíduo por sua conta e risco. Hoje em dia, com a humanidade vivendo cada vez mais, essas falhas ganham mais destaque.
Parteiras ancestrais — Os pesquisadores destacam, no entanto, que nem todas as marcas da evolução aparecem depois da idade reprodutiva. O próprio parto humano é extremamente perigoso, mais do que o dos outros primatas. "O jeito complicado pelo qual temos bebês mostra como não existiu nenhum designer projetando nosso sistema reprodutivo", diz Karen Rosenberg, antropóloga da Universidade de Delaware, organizadora da palestra.
Segundo os antropólogos, há cerca de dois milhões de anos a evolução tem selecionado cérebros — e crânios — cada vez maiores nos ancestrais humanos. Hoje, seu cérebro chega a ser três vezes maior do que era no começo desse processo. O problema é que isso vale não só para os adultos, mas também para os bebês. Quando nasce, uma criança humana tem, em relação ao corpo da mãe, a cabeça e o tronco duas vezes maior do que o dos outros primatas. "Além disso, o canal de nascimento não é uma passagem simples, mas muda de formato ao longo do percurso. O bebê tem de passar por passagens muito apertadas, girando para encontrar seu caminho", diz Karen.
Isso traz uma série de perigos no momento do parto, tanto para a mãe quanto para a criança,
incluindo danos neurológicos permanentes e até a morte. No entanto, a evolução também equipou o ser humano para lidar com esse risco. "Isso poderia ser uma ameaça à sobrevivência da espécie humana, mas somos animais culturais. Assim, conseguimos a ajuda de outras pessoas para diminuir o risco envolvido no momento do parto", afirma Karen.

Essa ajuda é clara nos tempos modernos, com a existência dos médicos obstetras e das cesarianas (que, segundo Karen, salvam vidas, mas estão sendo usadas em excesso em diversas partes do mundo). Esse tipo de apoio, entretanto, não é novidade – é anterior à própria medicina. "Basta a presença de alguém para ajudar a receber o bebê, auxiliar a mulher a respirar, a segurar a criança no momento do parto. Isso não exige tecnologia. Minha teoria é a de que esse tipo de ajuda existe desde os Australopithecus, há mais de três milhões de anos."
Projeto sem fim — A evolução não deixou apenas cicatrizes na espécie humana, mas também feridas abertas. Os Homo sapiens atuais não são apenas produto da seleção natural, mas seus agentes diretos — ela ainda está acontecendo em seus corpos. O exemplo mais claro disso é a presença — e a ausência — dos dentes do siso.
Os ancestrais humanos possuíam grandes maxilares, com espaço suficiente para o desenvolvimento completo dos dentes posteriores, como os molares e pré-molares. Com o aumento progressivo do cérebro ao longo dos milênios, o crânio humano começou a se organizar de modo diferente. O espaço destinado para a caixa craniana cresceu, às custas das partes inferiores da cabeça. Com isso, o maxilar não era mais capaz de suportar os antigos 32 dentes. Muitas vezes, o terceiro molar, o último dente a nascer, não conseguia mais se desenvolver por completo. Em alguns casos, ele crescia na direção horizontal, pressionando o resto da arcada dentária ou danificando o tecido mole da boca.

 
Isso, é claro, produzia dores crônicas, mas nunca levava à morte do indivíduo. Mesmo assim, a seleção natural começou a cuidar do problema. "Há dezenas de milhares de anos, uma mutação genética suprimiu a calcificação desse terceiro molar. Fósseis do pleistoceno já mostram pessoas sem esse dente", diz Alan Mann, professor de antropologia da Universidade de Princeton.

Para explicar como essa mutação se espalhou pela população, o pesquisador atualiza o conceito de evolução: ela não é mais vista apenas como a sobrevivência dos mais aptos, mas a reprodução dos mais aptos. "Imagine um casal de ancestrais humanos, cujo homem está sofrendo com o crescimento do terceiro molar. Quando chega o momento da reprodução, ele pode dizer: 'Hoje não querida, estou com muita dor de dente'. Assim, eles têm menos filhos do que teriam sem a dor", diz Alan Mann.
Desse modo, os humanos que portavam a mutação passaram a se reproduzir mais e a espalhar seus genes pela população. Hoje, em muitos lugares do mundo, 25% das pessoas não possuem pelo menos um desses dentes. Recentemente, com as modernas técnicas de extração dentária, as dores do siso podem ter deixado de ser um dos fatores de seleção natural — pelo menos nos países mais ricos. "Nos subdesenvolvidos, no entanto, ela ainda está agindo nesse sentido”, diz o antropólogo.
Fato é que a evolução humana ainda não acabou — e nunca vai acabar, enquanto a espécie existir — , mas os cientistas não fazem ideia sobre o caminho que irá traçar daqui para frente. As possibilidades são muitas e o processo é extremamente lento. "Sabemos que a evolução não cria características a partir do nada. Ela faz o melhor com o material que já existe" diz Jeremy de Silva. A partir do material disponível, o que dá para adiantar é que, independente da mudança a caminho, os humanos vão continuar funcionais, mas imperfeitos.
 
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