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Uma só exposição à fórmula infantil pode ser a grande responsável pelo aumento visível dos quadros de APLV (Alergia à proteína do leite de vaca)

  


Sabe quando a gente fala que não é para dar fórmula infantil na maternidade e que isso é altamente prejudicial para o futuro do bebê, mesmo que seja uma só vez (o que não é) e mesmo que seja “apenas um copinho” (para aliviar a culpa e o erro)?

E mesmo aquela “inocente” receitinha que sai da maternidade com nome de fórmulas infantis recomendando para entrar em contato logo com o pediatra para que se retome o aleitamento materno exclusivo (AME) o quanto antes, mas, de forma escancarada (ou subliminar) coloca a proporção para mamadas de até 240 ml (como se algum bebê de 7-10 dias, que é quando acaba acontecendo a primeira consulta com o pediatra, mamasse isso tudo)?

Isso acontece em quase todas as maternidades particulares, pelo menos aqui em São Paulo, já no berçário, muitas vezes no primeiro e segundo dias de vida do bebê.

Então...
Vou trazer aqui alguns artigos que justificam as recomendações para NÃO DEIXAR ISSO ACONTECER. E vocês vão perceber o quanto isso não é (ou, pelo menos, não deveria ser) novidade para ninguém. Mas para que essa questão seja adequadamente entendida, vou tentar explicar um pouco melhor.


O que é permeabilidade do intestino?

O intestino do bebê, dentro do útero, não tem uma função digestiva, até porque o feto recebe sua alimentação através do cordão umbilical (em livre-demanda). O intestino do recém-nascido (RN) é estéril e só começa a ser colonizado na passagem do canal de parto (tanto via vaginal – parto normal ou fórcipe – quanto via abdominal – cesariana).

Assim, quando o bebê nasce, seu intestino imaturo ainda não está protegido e absorve substâncias e nutrientes estranhos ao seu organismo, que podem provocar sintomas e doenças (proteínas grandes, como por exemplo, a caseína do leite de vaca – mesmo na fórmula infantil). Isso quer dizer que ele ainda é “permeável” a essas substâncias e está desprotegido contra essa ação prejudicial.

Essas proteínas grandes absorvidas pelo intestino sensibilizam as células desse intestino e, quando esse bebê entrar em contato novamente com a proteína estranha (por exemplo, a do leite de vaca, a caseína lembra?), ele vai ter uma reação muito mais intensa na tentativa de se proteger e desenvolve a alergia (APLV – alergia à proteína do leite de vaca).

A alergia não depende da quantidade da substância que a provoca (diferente da intolerância que depende da quantidade sim). Mesmo que o bebê seja exposto uma só vez, ele pode desenvolver essas reações. E é assim, de uma forma bem simplificada, que aumentamos o risco de APLV. Vamos aos estudos?


Permeabilidade intestinal do recém-nascido

Esse é um estudo lindo de 1984. Isso mesmo já tem 31 anos, publicado no Archives of Disease in Childhood (1984, 59, 236-241) e citado como referência em vários outros estudos desde 1988 até um que é de 2.014.

Esse estudo feito com 33 recém-nascidos (RN) teve o intuito de avaliar a permeabilidade do intestino a determinadas substâncias, analisando quais são os fatores que podem influenciar essa evolução e quais as consequências dessa situação.

Bebês com menos de 34 semanas de gestação apresentaram uma permeabilidade muito maior do que os de 34 a 37 semanas, mostrando que quanto mais prematuro, maior o risco de desenvolver alergias alimentares se tiverem contatos com essa proteína estranha (por exemplo... isso mesmo... a caseína).

Observou-se que essa permeabilidade caía durante a primeira semana de alimentação oral. Bebês entre 34-37 semanas de idade gestacional atingiam sua maturidade na permeabilidade intestinal 4 dias após o inicio da alimentação oral.

Isso quer dizer que o intestino só está protegido, impermeável, maduro após 4 dias da introdução da alimentação oral. Até lá, ele é facilmente sensibilizado por proteínas grandes, de digestão difícil, como as proteínas do leite de vaca.


O efeito do aleitamento materno na maturação intestinal do recém-nascido

Esse estudo publicado, em abril de 2009, informa que o intestino do RN é funcionalmente imaturo e imunologicamente “ingênuo”, sendo permeável e, com isso, aumentando riscos de doenças diarreicas, enterocolites necrotizantes e alergias.

O trato gastrointestinal amadurece e cresce rapidamente após o parto, mas leva algumas semanas para que as junções da mucosa gastrointestinal amadureçam e se fechem completamente, protegendo contra a passagem de patógenos e proteínas grandes. Essa permeabilidade diminui mais rapidamente em crianças amamentadas do que nas que recebem fórmulas infantis.

O RN é exposto a uma variedade de bactérias logo após seu parto (lembrem-se que o seu intestino é estéril dentro do útero) e a via de parto tem impacto direto no desenvolvimento da sua flora intestinal, sendo que, os que nascem via vaginal são colonizados pelas bactérias de sua mãe, enquanto que os que nascem por cesariana estão expostos às bactérias do meio ambiente, do ar (inclusive do hospital), de outras crianças, dos médicos e pessoal da enfermagem.

A flora intestinal é dependente da dieta do RN e por volta de 4 dias após o parto, 47% da sua flora é composta por bifidobactérias, necessárias para a proteção e o amadurecimento do intestino. É interessante saber que, se um RN em aleitamento materno receber mesmo que seja apenas uma dose de fórmula, a sua flora intestinal pode ser, permanentemente, alterada.

Assim, se um RN amamentado tiver que receber fórmula, é ideal que se espere até o fechamento do intestino e a diminuição da sua permeabilidade. Antes dessa fase, crianças em risco de APLV, se expostos ao leite de vaca, através da fórmula infantil, aumentam o risco de desenvolverem alergia.

O aleitamento materno exclusivo, dessa forma, favorece o amadurecimento do intestino, mantendo a microflora normal, protegendo contra a invasão de patógenos e prevenindo a exposição à indesejável proteína do leite de vaca.


Permeabilidade intestinal em prematuros de acordo com a forma de alimentação: Leite materno (LM) versus fórmula infantil (FI).

Esse artigo foi publicado no Breastfeed Med. em março de 2009 e avaliou a influência do tipo de aleitamento (LM ou FI) e a evolução da permeabilidade do intestino, estudando 62 prematuros (menos de 32 semanas de gestação) em 3 momentos (7, 14 e 30 dias de vida).

A conclusão foi que a permeabilidade intestinal dos prematuros é significativamente mais reduzida nos que receberam LM do que nos que receberam FI no primeiro mês de vida.

O LM protege o bebê, de forma significativa, contra o aparecimento precoce de APLV, promovendo um fechamento mais rápido e mais persistente da permeabilidade intestinal do que os que receberam fórmulas.


Concluindo

Fica assim comprovado, através desses 3 (dentre outros) estudos, que uma só exposição à fórmula infantil pode ser a grande responsável pelo aumento visível dos quadros de APLV (Alergia à proteína do leite de vaca).

As maternidades e seus berçários deveriam, mesmo não fazendo parte da Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), estimular ao máximo e à exaustão o aleitamento materno desde a sala de parto.

Além disso, ao contrário do que é feito hoje, mesmo antes de alguma dificuldade no processo de amamentação ainda na maternidade, deveria ser disponibilizado às mães e aos recém-nascidos um apoio e um suporte, por uma equipe da própria maternidade,  para que, em qualquer situação, mesmo que não em alojamento conjunto, a amamentação fosse estimulada evitando, dessa forma, o risco de desmame e, consequentemente, a exposição a riscos maiores de alergias.

Já na maternidade, o estímulo à doação de leite humano e o esclarecimento sobre o assunto poderiam ser um passo importantíssimo para que os Bancos de Leite no Brasil, que continuam sendo citados como 
exemplo para o mundo, especialmente quando nos referimos aos prematuros, pudessem proteger e favorecer esses bebês.

Além disso, com o hábito e o tempo, preparar essas mães para que, 15 dias antes de sua volta ao trabalho, fosse absolutamente natural a retirada e o armazenamento do leite materno para oferecer  seus próprios filhos, no período em que elas não estejam em casa (em copinho). Mas nesse ponto, nós, pediatras, devemos contribuir e orientar.

Vamos nos mobilizar e pressionar: #diganaoaoleitedevacanamaternidade #aleitamentomaternojanasaladeparto #mamadeirasnamaternidadenuncamais.

Moises Chencinski- CRM-SP 36.349

Médico especializado em Pediatria e Homeopatia

Membro do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Autor dos livros Gerar e Nascer- Um canto de amor e aconchego e Homeopatia- Mais simples do que parece.

Redator do blog Mama que te faz bem.

 
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