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A esquizofrenia é um tema que, embora a maioria das pessoas já tenha ouvido falar, gera muitas dúvidas. Quais são seus principais sintomas? Como a família deve lidar com este transtorno? Como é o tratamento? Essas são apenas algumas das questões.


Marcia Morikawa, psiquiatra do Hospital Albert Einstein, explica que a esquizofrenia pode ser definida como um transtorno mental crônico, onde o paciente apresenta sintomas psicóticos, em surtos, ao longo de sua vida. “Estes sintomas são caracterizados por alucinações, delírios, desorganização do pensamento e até comportamentos bizarros”, diz.

A doença é multifatorial, ou seja, tem uma gama de etiologias. “Há coeficiente genético, sendo que a incidência da doença na população geral é de 1%. Quando um dos genitores ou um irmão é acometido pelo transtorno, o risco de desenvolvimento da esquizofrenia sobe para 10-20%. Entre gêmeos idênticos, a concordância é de 50%, enquanto entre gêmeos dizigóticos, a incidência é de 12%. Se for um dos avós, o risco é de 3%. Se ambos os pais forem esquizofrênicos, o risco de acometimento aumenta para 40-50%”, explica a psiquiatra.

“Sabe-se que há uma alteração de neurotransmissores, como uma hiperfunção dopaminérgica central, mas sabe-se que existem outros neurotransmissores implicados na sua gênese. Outros fatores que se correlacionam com o possível surgimento do transtorno são as situações de estresse fetal, com má nutrição do feto, que podem ocorrer por doenças durante a gestação, complicações na gestação e periparto, como a prematuridade extrema”, acrescenta Marcia.



Ainda de acordo com a médica, as teorias psicológicas aventadas na década de 40, de que existiria um comportamento maternal “esquizofrenogênico”, não se comprovaram e não são mais consideradas como fator etiológico. Tais teorias tentavam mostrar que determinados padrões de comportamento materno, incluindo hostilidade e rejeição, pareciam ser frequentes em mães de pacientes que desenvolviam esquizofrenia. Entretanto, a falta de comprovação fez com que fossem descartadas.


Sintomas da esquizofrenia

Os principais sintomas da esquizofrenia organizam-se entre dois grandes grupos: sintomas positivos e negativos. “Nos sintomas positivos, estão as alucinações, que são percepções irreais, que ocorrem independentemente de haver estímulos externos. Podem ser visuais, auditivas (que falam com a pessoa ou sobre a pessoa, como se estivesse comentando suas ações, que dão ordens de comando etc.), cinestésicas (sensações corporais, como se houvessem bichos andando sob a pele da pessoa), olfativas (odor de perfumes ou cheiros desagradáveis) etc.”, destaca Marcia.

Outros sintomas positivos são os delírios, que são crenças irreais e irremovíveis, com conteúdo místico religioso. “Por exemplo, que a pessoa detém poder de abençoar e curar outras pessoas, que é portadora da mensagem de Deus, de perseguição (como no filme mente Brilhante, onde o personagem de Russel Crowe acredita haver um complô militar contra ele, ou quando pessoas acreditam que foram instaladas câmeras para vigiá-lo, que envenenaram sua comida), de influência (no qual a pessoa acredita que seu corpo é comandado por outra pessoa/força) etc.”, acrescenta a psiquiatra.

Os sintomas negativos, de acordo com Marcia, são os menos notados pela população em geral. “Estão associados ao achatamento do afeto, ou seja, à apatia afetiva que encontramos na maior parte dos pacientes. Eles acabam tendo menos iniciativa e aparentam uma maior conformidade com as situações, com menor ressonância aos estímulos ambientais”, diz.

De acordo com a médica, a idade de início dos sintomas é mais precoce em homens, ocorrendo na idade adulto-jovem, por volta dos 20-25 anos e, nas mulheres, é mais tardio, ocorrendo por volta dos 30-35 anos.

A esquizofrenia é uma condição que, inevitavelmente, afeta toda a família. As dicas abaixo ajudam no sentido de lidar com ela da melhor maneira possível:


1. Informe-se sobre a esquizofrenia

“A educação familiar sobre a natureza da doença e estratégias de enfrentamento podem marcadamente diminuir as recaídas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes”, destaca Marcia.

Neste sentido, é importante que, não só os pais, mas todos da casa (no caso daqueles pacientes que têm irmãos, os que são casados etc.) estejam a par desta condição.


2. Tenha em mente os sintomas da doença

“Para lidar com a esquizofrenia é preciso conhecer seus sintomas, e qual a plasticidade que aquele indivíduo apresenta quando vai apresentar uma descompensação clínica. O familiar tem que aprender a reconhecer quais são as características próprias daquele indivíduo e da sua apresentação sintomática”, explica a psiquiatra.


3. Intervenha antes que a crise esteja completa

O familiar, conhecendo quais são as características próprias daquele indivíduo e sua apresentação sintomática, será capaz de identificar os primeiros sinais de descompensação e poderá intervir antes que a manifestação psicótica esteja completa, explica a psiquiatra Marcia.


4. Procure ajuda e informações com pessoas experientes no assunto

“Procurar associações de familiares de pacientes, encontros psicoeducacionais sobre o tema e conversar com o médico psiquiatra do paciente são os melhores caminhos para se informar sobre a doença, sem estigmas e preconceitos, para auxiliar o paciente nas suas dificuldades diárias, como na aderência à medicação, enfrentamento dos sintomas, socialização, execução de tarefas etc.”, diz Marcia.


5. Apoie o paciente e se livre de qualquer preconceito

É um erro pensar que as pessoas com esquizofrenia não conseguem viver bem entre seus familiares e amigos. A psiquiatra explica que pessoas com esquizofrenia podem conviver tão bem com familiares e amigos quanto melhor for sua aderência ao tratamento, o apoio dos familiares, a psicoeducação dos mesmos e quanto menor for o preconceito dos que o cercam. “Pacientes estabilizados podem ter uma vida normal em família, com seus empregos e rede social”, destaca.


Tratamento da esquizofrenia

O tratamento da esquizofrenia se baseia no controle dos sintomas, com o uso de medicamentos antipsicóticos, ao longo da vida. “Existem os antipsicóticos típicos, que são medicações mais antigas, de ótima eficácia para o tratamento dos sintomas positivos, porém, maior perfil de efeitos colaterais; e os antipsicóticos atípicos, com menos efeitos extrapiramidais e mais eficazes no tratamento dos sintomas negativos da esquizofrenia”, destaca Marcia.

Uma vez diagnosticado o transtorno, explica a psiquiatra, o tratamento contínuo é necessário, pois ainda não há cura para o mesmo. “Ou seja, se o uso das medicações for correto, há o controle da doença. Caso haja irregularidade no uso da medicação, novas descompensações irão ocorrer, semelhante a tratamentos clínicos de patologias extremamente diversas como diabetes, hipertensão, hipotireoidismo”, diz.


De acordo com a médica, os objetivos do tratamento durante a fase aguda do tratamento, quando há a vigência de sintomas psicóticos, são:

- Evitar danos ao paciente;

- Controlar o comportamento alterado;

- Reduzir a gravidade da psicose e dos sintomas associados (por exemplo: agitação, agressividade, sintomas negativos, sintomas afetivos).

Durante a fase de estabilização, acrescenta Marcia, os objetivos do tratamento são:

- Reduzir o estresse sobre o paciente;

- Fornecer apoio para minimizar a probabilidade de recaída;

- Melhorar a adaptação do paciente à vida na comunidade;

- Redução progressiva dos sintomas;

- Consolidação da remissão;

- Promoção do processo de recuperação;

- Reinserção social.

- Prevenção da esquizofrenia

Marcia explica que o uso de substâncias como cannabis (gênero de algumas plantas das quais a mais famosa é a Cannabis Sativa, da qual se produz a maconha e o haxixe), álcool e outras drogas, pode levar ao desencadeamento de surtos psicóticos, que podem ou não levar à instalação do quadro esquizofrênico. “Sendo assim, evitar o contato com estas substâncias, pode diminuir a chance do indivíduo, predisposto, a desenvolver o transtorno”, destaca.


Mitos e verdades sobre a esquizofrenia


1. MITO: A maioria das pessoas com esquizofrenia é violenta ou perigosa.

Marcia explica que a maioria das pessoas, em surto psicótico, pode ter comportamento violento ou perigoso, a depender da crença delirante que a pessoa tem naquela situação/momento, pois está com suas capacidades de julgamento prejudicadas. “Porém, pacientes com controle sintomático da doença não são mais violentas do que indivíduos comuns que encontramos na rua, ao nosso redor”, destaca.


2. MITO: A esquizofrenia pode ser causada por negligência dos pais.

Marcia destaca que o transtorno é multifatorial e, apesar de ter influência do meio (neste, inclusive, entram as drogas), não pode ser desencadeado, exclusivamente, pelo comportamento parental. “Estudos com gêmeos idênticos, adotados e que foram criados em ambientes completamente diversos, mantém a mesma incidência de diagnóstico, comprovando que o fator genético é muito mais importante na gênese do transtorno”, acrescenta a médica.


3. MITO: Se o pai tem esquizofrenia, o filho necessariamente vai ter também.

Marcia destaca que se um dos genitores é portador do transtorno, a chance do filho desenvolver a esquizofrenia é de 10 a 20%.


4. MITO: Se a pessoa tem esquizofrenia precisa ficar em um hospital psiquiátrico.

De acordo com Marcia, existe o estigma dos hospitais psiquiátricos. “O conceito de ‘manicômio’ é preconceituoso e não corresponde à realidade vivida na atualidade”, diz.

A psiquiatra explica que um paciente com esquizofrenia, bem como um paciente bipolar, um deprimido ou um paciente com quadro demencial, pode se beneficiar de internações ao longo da vida, por períodos muito curtos de tempo, para a proteção do mesmo, em vigência de crise, e para o ajuste do tratamento medicamentoso.

“Entretanto, é extremamente danoso que os pacientes permaneçam por longo período afastados de seu meio, no conceito antigo de hospitalização psiquiátrica; como é danoso para um paciente com asma (que também é uma patologia crônica) que queira permanecer no hospital, com medo de ter falta de ar em casa”, destaca.


5. MITO: Se a pessoa tem esquizofrenia nunca poderá trabalhar.

Pacientes que estejam estabilizados, aderindo ao seu tratamento de forma correta, de acordo com Marcia, podem ter uma vida normal. “O foco do tratamento multidisciplinar é reinserir os pacientes na sociedade, na sua vida cotidiana, para que o mesmo possa trabalhar, namorar, casar, se divertir”, destaca.


6. MITO: Pessoas esquizofrênicas são preguiçosas.

Não é correto dizer que pessoas esquizofrênicas são preguiçosas. Mas, Marcia explica que os sintomas negativos, quando presentes, deixam os pacientes mais apáticos e com o afeto mais achatado (falta de entusiasmo, de vitalidade). “Entretanto, o objetivo do tratamento é alcançar a remissão destes sintomas, para que o paciente possa realizar todas as suas atividades corriqueiras, com qualidade e com bem-estar”, destaca.


7. VERDADE: Não há cura para a esquizofrenia.

A pessoa, de fato, nunca poderá se curar da esquizofrenia. Porém, ressalta Marcia, “o tratamento existe, está disponível, cada vez com medicações mais novas, com menor perfil de efeitos colaterais, buscando a remissão sintomática, para que o paciente tenha menor número de recidivas, com maior qualidade de vida, bem como um menor perfil de efeitos residuais e degenerativos”, finaliza a psiquiatra.
 
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