Já saber viralizar no Facebook?

Já saber viralizar no Facebook?
Seja Magnético

Distúrbio neurológico do sono surge entre os 15 e 30 anos

O problema está ligado ao déficit do neurotransmissor orexina, que atua na área do cérebro responsável pela produção de hormônios


Augusto Pio /Estado de Minas
Narcolepsia, distúbrio neurológico do sono, surge entre os 15 e 30 anos de idade. Ele está ligado ao déficit do neurotransmissor orexina, que atua na área do cérebro responsável pela produção de hormônios que controlam funções vitais como fome, sono e sede
Augusto Pio

Sonolência excessiva durante o dia, cataplexia (perda súbita e reversível da força muscular), paralisia do sono, alucinações, sono agitado ou interrompido durante a noite e pesadelos. Se você tem registrado com frequência esses sintomas pode ser portador de narcolepsia, um distúrbio neurológico do sono identificado em 1880 pelo neurologista francês Jean-Baptiste Gélineau. A doença é caracterizada por episódios incontroláveis e recorrentes de sonolência durante o dia, que podem durar de 15 minutos a uma hora. Tal distúrbio chega a afetar cerca de 140 mil norte-americanos. No Brasil, não há dados estatísticos sobre ele.

Os sinais de narcolepsia começam a surgir, geralmente, entre os 15 e os 30 anos. Sua causa está ligada ao déficit do neurotransmissor orexina no hipotálamo (área do cérebro responsável pela produção de hormônios que controlam a fome, sede, o sono e outras funções vitais). A baixa desse neurotransmissor estimulante leva à sonolência excessiva. A orexina é também chamada de hipocretina (proteína do sistema nervoso que se encontra nos neurônios do hipotálamo lateral (região do cérebro que, entre outras funções, regula o sono, a vigília e o apetite) e tem a capacidade de excitar os neurônios, células do sistema nervoso responsável pela condução do impulso nervoso.

Alguns fatores que podem agir em conjunto para a falta de hipocretina incluem alterações hormonais e estresse, infecções, a perda de certas células cerebrais, devido a lesão e reação autoimune. Para a neurologista Rosamaria Peixoto Guimarães, neurofisiologista e presidente da Sociedade Mineira de Neurologia, os principais sintomas da narcolepsia são a tretade (conjunto de quatro sintomas) clínica, composta de sonolência diurna excessiva com ataques de sono com necessidade irresistível de dormir, cataplexia, alucinações hipnagóginas (percepções reais de um objeto ou pessoa inexistentes) que ocorrem nos primeiros estágios do sono e paralisia do sono.

“Somente 10% dos casos têm todos os componentes da tretade e 25% apenas a cataplexia. Outras características podem existir, como o sono noturno fragmentado, comportamento automático, visão borrada, redução da concentração e da memória. Podem coexistir outros distúrbios do sono como síndrome da apneia obstrutiva do sono (caracterizada pela obstrução completa ou parcial recorrente das vias aéreas superiores durante o sono), síndrome das pernas inquietas, desordens alimentares noturnas e desordem comportamental do sono REM (fase do sono na qual ocorrem os sonhos)”, explica a neurologista. Ela acrescenta que as principais consequências da doença são o baixo desempenho escolar e profissional, o constrangimento social devido aos ataques de sono e o risco aumentado de acidentes.

Rosamaria esclarece que a narcolepsia não é transmissível, mas alerta que esta, sim, pode ser adquirida primariamente por herança recessiva ou secundariamente. “O diagnóstico é feito por meio do quadro clínico do paciente, estudos laboratoriais, dosagem de hipocretina no líquor (fluído do cérebro), e polissonografia (exame do sono), seguida do teste de latência múltipla do sono. O tratamento é feito por meio de medicamentos”, esclarece. A especialista salienta que não há como evitar a doença e que esta pode aparecer em qualquer idade. “Nos casos de deficiência primária de hipocretina, normalmente, a narcolepsia aparece na segunda década. Nos casos de deficiência secundária de hipocretina, ela pode aparecer em qualquer idade. Infelizmente, no momento atual, não há cura, somente tratamento. Porém, o paciente tratado pode manter uma vida normal, sem complicações e não corre o risco de morrer”, explica a médica.

SEM HERANÇA

A neurologista acrescenta que a narcolepsia não é uma doença hereditária. “Embora a maioria dos casos possam ser esporádicos, há casos bem documentados de agrupamentos familiares. O risco de um parente de primeiro grau desenvolver a doença é de 10 a 40 vezes maior do que o da população em geral. E há uma concordância de 25% a 31% entre gêmeos monozigóticos (também chamados de idênticos ou univitelinos)”, esclarece.

Ela ressalta que, além dos fatores genéticos, fatores ambientais parecem estar envolvidos, como o traumatismo craniano, o acidente vascular cerebral (AVC), a encefalite/meningoencefalite (processo inflamatório que envolve o cérebro e meninges), encefalomielite (doença causada por um vírus), a mudança do ciclo sono-vigília (este é caracterizado por uma alternância regular do sono com a vigília, que é uma adaptação do organismo ao ciclo dia-noite), as infecções estreptocócicas (causadas por bactérias gram-positivas chamadas estreptococos), infecção causada pelo vírus influenza H1N1, a exposição a metais pesados e os inseticidas”.

Três perguntas para...

Ana Lúcia Gonçalves, neurologista - especialista em epilepsia e medicina do sono

Quais os tratamentos usados para combater a narcolepsia?
O tratamento se baseia no uso de medicações e no não medicamentoso. Medidas de higiene do sono têm um papel importante no tratamento, como manter horário regular do maior período de sono, evitar fumar, principalmente à noite, evitar o consumo de álcool e cafeína, particularmente nas três ou quatro horas antes de dormir, além de promover um ambiente adequado, quieto e calmo para o sono. A prática regular de exercícios também ajuda a melhorar a qualidade do sono. Cochilos programados com duração de 15 a 20 minutos a cada quatro horas podem melhorar a sonolência excessiva, tornando o paciente mais alerta, melhorando a concentração e seu desempenho nas atividades cotidianas.

Os medicamentos têm algum efeito colateral?
Como todo medicamentos, os para tratar a narcolepsia também têm efeitos colaterais. Com o diagnóstico, o paciente é informado de como será o tratamento, da importância das medidas comportamentais e de como será usada a medicação. Em caso de efeitos colaterais, o médico deve informado. Há como alterar a dose ou até mesmo optar por outra medicação, de forma que o paciente melhore sua qualidade de vida. Em geral, a medicação é bem tolerada.

Quais as maiores consequências da doença na vida da pessoa?
Os maiores prejuízos que um paciente narcoléptico tem são as dificuldades sociais que a doença acarreta, como o comprometimento da capacidade funcional no trabalho e desempenho escolar. Os pacientes devem ser orientados a evitar trabalhos com mudança de turno, noturnos, como motoristas ou qualquer outro emprego que exija concentração por período prolongado ou que seja monótono. Professores de pacientes com narcolepsia devem receber orientações quanto à doença para que permitam o melhor aproveitamento do aluno. A doença em si não mata, mas pode colocar o paciente em situações perigosas, gerando acidentes, seja no trânsito ou no trabalho, podendo até mesmo levá-lo a óbito.
 
Top