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Nise da Silveira - uma psiquiatra rebelde

Por Dr. Lauro Arruda - Cardiologista

Nise da Silveira nasceu em Maceió, Alagoas, em 15 de fevereiro de  1905. Seu pai, Faustino Magalhães, era professor e  jornalista, diretor do Jornal de Alagoas; a mãe, Lídia da Silveira, era pianista. Fez seus primeiros estudos com as freiras do Colégio Santíssimo Sacramento, em Maceió. Em 1921, aos 16 anos, entrou para a Faculdade de Medicina da Bahia, e concluiu o curso aos 21 anos, como única mulher entre os 157 homens da turma de 1926. Sua tese de doutoramento foi: Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil. Foi uma das primeiras mulheres no Brasil a se formar em Medicina. Casou-se  com o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, seu colega de turma na faculdade, com quem viveu até ele falecer, em 1986. 
Em 1927, após o falecimento do  seu pai, Nise e Mário mudam-se para o Rio de Janeiro, onde ela passou a frequentar os meios artístico, político e literário. Em 1933, estagiou na clínica neurológica de Antônio Austregésilo.No mesmo ano foi aprovada num concurso para psiquiatra do Hospital da Praia Vermelha, no Serviço de Assistência à Psicopatas e Profilaxia Mental.
Durante a Intentona Comunista, foi denunciada por possuir  livros marxistas e ter ligações com membros do partido comunista. Em 1936, foi levada para o presídio da rua Frei Caneca, onde ficou detida por 16 meses. Foi companheira de cela de Olga Benário, esposa do líder Luiz Carlos Prestes, e tornou-se uma das personagens do livro Memórias do Cárcere, do escritor alagoano Graciliano Ramos, que também estava preso lá. De 1937 a 1944, permaneceu com seu marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público por razões políticas, época que o Brasil vivia sob o domínio da ditadura Vargas. Durante seu afastamento fez uma profunda leitura reflexiva das obras do filósofo Spinoza, material publicado em seu livro Cartas à Spinoza,  em 1995.
Em 1946,  foi anistiada e  reintegrada ao serviço público, dando inicio ao seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, onde retomou sua luta contra as técnicas psiquiátricas que considerava agressivas aos pacientes, como eletrochoques, coma insulínico e lobotomia.Por sua discordância com os métodos adotados nas enfermarias,  Nise da Silveira foi transferida para o trabalho com terapia ocupacional, atividade então menosprezada pelos médicos. Assim, em 1946, fundou nesta instituição a "Seção de Terapêutica Ocupacional". No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela criou ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a Psiquiatria então praticada no país.
Em 1952,  fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem, pintura, escultura e carpinteria que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abrem novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico.Entre outros artistas-pacientes que criaram obras incorporadas na coleção desta instituição, que conta com cerca de 300 mil exemplares, podemos citar: Adelina Gomes; Carlos Pertuis; Emygdio de Barros, Fernando Diniz, Rafael Domingos, Octávio Inácio e Arthur Bispo do Rosário.Este valioso acervo alimentou a escrita de seu livro "Imagens do Inconsciente", filmes e exposições significativas, como a "Mostra Brasil 500 anos".Entre 1983 e 1985, o cineasta Leon Hirszman realizou o filme "Imagens do Inconsciente", trilogia mostrando obras realizadas pelos internos em Engenho de Dentro, a partir de um roteiro criado por Nise da Silveira.
Poucos anos depois da fundação do museu, em 1956, Nise desenvolveu outro projeto também revolucionário para a época: criou a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas, onde eles podiam expressar sua criatividade, sendo tratados como pacientes externos numa etapa intermediária entre a rotina hospitalar e sua reintegração à vida em sociedade. Ao perceber que a responsabilidade de cuidar de um animal e o desenvolvimento de laços afetivos podia contribuir para a reabilitação de doentes mentais, Nise da Silveira os incorporou a seu trabalho, e costumava chamar os animais de co-terapeutas. Ela comprovou que a afetividade não é anulada pelo problema psiquiátrico, e descreveu parte deste processo em seu livro "Gatos, A Emoção de Lidar", publicado em 1998,quando já tinha a idade de 93 anos.
Os estudos do psiquiatra suiço Carl Jung sobre os mandalas, atraíram a atenção de Nise da Silveira para suas teorias sobre o inconsciente. Notando serem  mandalas temas recorrentes nas pinturas de seus pacientes, passou a manter correspondência sobre o tema com Jung a partir de  1954 . Foi  estimulada pelo mestre a apresentar uma mostra das obras de seus pacientes, que recebeu o nome "A Arte e a Esquizofrenia", ocupando cinco salas no "II Congresso Internacional de Psiquiatria", realizado em 1957, em Zurique. Nise da Silveira estudou no "Instituto Carl Gustav Jung" em dois períodos: de 1957 a 1958; e de 1961 a 1962. Lá recebeu supervisão em psicanálise da assistente de Jung, Marie-Louise von Franz. Retornando ao Brasil após seu primeiro período de estudos jungianos, formou em sua residência o "Grupo de Estudos Carl Jung", que presidiu até 1968. Escreveu, dentre outros, o livro "Jung: vida e obra", publicado em primeira edição em 1968.
Foi membro fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica ("Societé Internationale de Psychopathologie de l'Expression"), sediada em Paris. Sua pesquisa em terapia ocupacional e o entendimento do processo psiquiátrico através das imagens do inconsciente deram  origem a diversas exibições, filmes, documentários, audiovisuais, cursos, simpósios, publicações e conferências. 
Em reconhecimento a seu trabalho, Nise foi agraciada com diversas condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento., entre outras: "Ordem do Rio Branco" no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987); “ O título de doutora honoris causa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)” em 1988;"Prêmio Personalidade do Ano de 1992", da Associação Brasileira de Críticos de Arte;"Medalha Chico Mendes", do grupo Tortura Nunca Mais (1993)"Ordem Nacional do Mérito Educativo", pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993).
Seu trabalho e idéias inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas  em diversos estados do Brasil e no exterior, como:

•    o "Museu Bispo do Rosário", da Colônia Juliano Moreira (Rio de Janeiro)
•    o "Centro de Estudos Nise da Silveira" (Juiz de Fora,Minas Gerais)
•    o "Espaço Nise da Silveira" do Núcleo de Atenção Psico-Social (Recife)
•    o "Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira", do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre-RS)
•    a "Associação de Convivência, Estudo e Pesquisa Nise da Silveira" (Salvador -Ba,)
•    o "Centro de Estudos Imagens do Inconsciente", da Universidade do Porto (Portugal)
•    a "Association Nise da Silveira - Images de L'Inconscient" (Paris- França)
•    o "Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli" (Genova-Itália)

Obras publicadas:

•    Jung: vida e obra, Rio de Janeiro: José Álvaro Ed. 1968.
•    Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.
•    Casa das Palmeiras. A emoção de lidar. Uma experiência em psiquiatria.    Rio de Janeiro: Alhambra. 1986.
•     O mundo das imagens. São Paulo: Ática, 1992.
•     Nise da Silveira. Brasil, COGEAE/PUC-SP 1992.
•     Cartas a Spinoza. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1995.
•     Gatos, A Emoção de Lidar. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 1998.

Nise da Silveira faleceu devido a insuficiência respiratória, em 30 de outubro de 1999, no Rio de janeiro, aos 94 anos.
 
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