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Resumo

     Nos últimos anos, com o crescimento da indústria da cana, houve sérias conseqüências tanto com relação ao meio ambiente como para os trabalhadores. Associa-se, desde o século passado, significativamente a poluição atmosférica e morbimortalidade da raça humana, inclusive para níveis de poluentes no ar considerado como seguro para saúde da população exposta. A produção da cana é destrutiva pois promove a queima dos solos, além da poluição. Nos canaviais a queimada implica na combustão rápida de um volume enorme de matéria orgânica e que ocorre em maior intensidade nos períodos de seca e temperaturas mais baixas, sabidamente prejudiciais ao sistema respiratório. O interesse pelo problema reside no fato de que muitos pacientes com doenças crônicas respiratórias, referem agravamento dos sintomas no período do ano que há a queima da cana-de-açúcar. Afisioterapia se apresenta como uma alternativa para aliviar os sintomas, ou mesmo auxiliando no tratamento das patologias já instaladas através de métodos como aerossolterapia e exercícios respiratórios. Uma opção para acabar com as queimadas é a mecanização do setor. Em março de 2006, o prazo para que proibisse a queima da cana foi aumentado de quinze (15) para mais vinte (20) anos. As colheitadeiras funcionam em áreas planas e contínuas, mas causa maior compactação do solo e prejudicam as mudas que deveriam rebrotar, além do que exige corte rente ao solo e a ponteira da cana bem aparada gerando superexploração do trabalho. Porém a colheita da cana mecanizada não só aumenta o rendimento operacional do procedimento como também reduz o impacto ambiental, por dispensar a queima de resíduos mas, do ponto de vista social pode causar grande desemprego, já que uma colhedora é capaz de substituir oitenta (80) trabalhadores por dia. Desta forma surge uma questão preocupante: o que seria de maior de prioridade? Concluindo –se que é de conhecimento as diversas conseqüências que a queima da cana-de-açúcar produz porém também o é a respeito das poucas possibilidades dos trabalhadores em questão sendo a mecanização uma solução plausível porém somente no que diz respeito ao primeiro.

1- Introdução

   A indústria da cana foi o setor de agronegócio que mais cresceu no Brasil em 2005, e essa expansão tem trazido sérias conseqüências para o País, como destruição ambiental e expulsão dos trabalhadores do campo (MENDONÇA, 2006a). O País é o maior exportador mundial de açúcar, o qual em 2004, exportou 15,7 milhões de toneladas do produto e é responsável por 45% do mercado.

   Sempre, com grande importância na economia e no processo histórico brasileiro, a indústria da cana, adquiriu dimensão ainda maior no Brasil com a crise internacional nos anos 70, que causou forte alta no mercado petroleiro e impulsionou o setor canavieiro, a partir da criação da Proálcool. De 1972 a 1995, o governo brasileiro incentivou o aumento da área de plantação da cana e a estruturação do complexo sucro-alcooleiro, com grandes subsídios e diferentes formas de incentivo..

   Apesar das diversas vantagens com relação a industria da cana, existe um contraponto: a cana-de-açúcar é uma cultura agrícola singular, uma vez que, por razões de produtividade e de segurança, sua colheita é realizada após a queima dos canaviais, o que gera uma grande quantidade de elemento particulado negro denominado”fuligem da cana”. Esse material particulado modifica as características do ambiente nas regiões onde a cana é cultivada, colhida e industrializada (ARBEX et al., 2004a).

2- A indústria da Cana-de-Açucar
  
         2.1- Histórico

             Desde o início do século passado, estudos na literatura médica documentaram uma significativa associação entre poluição atmosférica decorrente da emissão de combustíveis fósseis e morbimortalidade na raça humana, inclusive para níveis de poluentes no ar considerado como seguro para a saúde da população exposta.

             O processo de fabricação de açúcar da cana como qualquer processo industrial consome matérias primas: neste caso a cana-de-açúcar e diferentes reativos, além de energia. O bagaço de cana, resíduo lignocelulósico obtido logo após a moagem da cana, é a fonte principal de energia para o processo de fabricação de açúcar, se tornado assim auto-suficiente.

             Todos os estudos relacionados a queima de vegetação a céu aberto dizem respeito a episódios fortuitos. Na década de 70 durante a crise do petróleo, o governo brasileiro implementou um programa chamado próalcool com o objetivo de produzir um combustível alternativo, renovável e não poluente: o etanol, derivado da cana-de-açúcar. Esse programa culminou com a grande produção de veículos movidos a álcool a partir da década de 80 e, com um grande implemento da cultura da cana (ARBEX et al, 2004b).

          2.2- A indústria e as queimadas

              Apesar do desenvolvimento tecnológico, o setor apresenta grande concentração fundiária. De um total de 5 milhões de hectares plantados, apenas 20% da cana produzida no Brasil vêm de pequenas e médias propriedades.

              Por sua vez, diversos estudos demonstram que a prática da monocultura extensiva promove destruição ambiental. A produção da cana é destrutiva pois promove a queima dos solos, o alto nível de utilização de produtos químicos, além da poluição e do lixo químico das usinas processadoras do álcool e do açúcar.

              Com o homem e sua atividade agroindustrial apareceu a poluição ambiental. A humanidade entra no século XXI enfrentando problemas ambientais extremamente complicados, cuja solução parece estar mais na aplicação  de uma estratégia ambiental preventiva do que em ações corretivas . Uma diversidade de termos tem sido propostos para denominar esta estratégia preventiva que vão desde os mais conservadores como minimização de resíduos, até os mais radicais como ecologia industrial, prevenção da poluição e poluição zero (LORA, 2000a).

              Alem de ser uma prática cíclica, a queimada nos canaviais implica na combustão rápida de um volume enorme de matéria orgânica e que ocorre em maior intensidade nos períodos de seca e de temperaturas mais baixas, sabidamente prejudiciais ao sistema respiratório (MANÇO, 2006a).

               Desta forma queimadas florestais, queimadas urbanas, bem como as queimadas nos canaviais degradam o meio ambiente e produzem conseqüências danosas à saúde do ser humano.

               Mais de setenta produtos químicos já foram identificados na fumaça resultante das queimadas, sendo que muitos desses produtos são tóxicos ou tem ação cancerígena. De modo geral, os componentes básicos da poluição atmosférica resultante das queimadas são: material particulado- mais de 90% da massa de partículas encontradas na fumaça produzida pela queima de produtos vegetais, como é o caso das queimadas nos canaviais, consiste em partículas finas, justamente a fração de material particulado que traz maior prejuízo à saúde. São ainda liberadas substâncias cancerígenas e gases tóxicos (MANÇO, 2006b).
                Um fator que inibe a realização de atividades de prevenção da poluição na indústria é o temor de que, estas medidas, afetem a qualidade do produto, a ponto de torná-lo inaceitável pelos consumidores (FREEMAN et al.,1992), por isso a importância de serem estabelecidos incentivos econômicos aos projetos de prevenção da poluição a fim de facilitar sua realização (LORA 2000b).

                A poluição atmosférica pode ser medida em microgramas de partículas poluentes por metro cúbico de ar e a taxa permitida pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente é cinqüenta (50) microgramas (MENDONÇA, 2006b).

                Além do incômodo que provoca, nos dias com mais partículas, há um aumento de vinte porcento (20%)  no número de inalações feitas nos prontos socorros , que são marcadores de processos agudos respiratórios, como asma, enfisema e bronquite crônica, explica o médico Marcos Arbex, um dos autores do estudo desenvolvido no laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP.

 3-  Agravos à saúde

      Do ponto de vista médico, o interesse pelo problema reside no fato de que muitos pacientes com doenças crônicas do sistema respiratório, principalmente bronquite crônica, enfisema e asma, referem agravamento dos seus sintomas no período do ano que coincide com a queima da cana. E segundo o pneumologista José Eduardo de Oliveira, diretor da Direção Regional de Saúde em São José dos Campos, pacientes crônicos tem seus sintomas agravados com a poluição do ar (ARBEX at al., 2004c).

      No entanto, qualquer pessoa saudável pode sentir os efeitos da poluição atmosférica provocada pelas queimadas e que se apresentam como ardor nos olhos, narinas e garganta, sendo os mais sensíveis aos efeitos da poluição atmosférica crianças e pessoas idosas.

      As atitudes, em situações como esta, tem que ser preventiva, isto é, evitar o mal antes que ele apareça e, nesse caso a prevenção se faria combatendo as queimadas; o corte manual é possível sem as queimadas mas, os próprios cortadores, que recebem por produtividade, preferem cortar a cana já queimada, pois o trabalho fica mais veloz (MENDONÇA  2006c). Estes trabalhadores inclusive, estão entre os mais atingidos pelos malefícios da poluição resultante da queima da cana-de-açúcar.

      Como já foi dito, o corte manual é possível sem queimadas, mas os próprios cortadores, que recebem por produtividade, preferem cortar a cana já queimada, pois o trabalho fica mais veloz. 

Apesar de ser considerado um combustível “limpo”, a produção de cana destrói o meio ambiente e afeta a saúde da população. A queimada serve para facilitar a colheita, porém essa prática destrói grande parte dos microorganismos do solo, polui o ar e causa doenças respiratórias.

      Os principais efeitos da poluição no organismo das pessoas incluem,  o agravamento de doenças respiratórias e o aumento dos casos de gripe, resfriado, amigdalites, entre outras.

      A poluição do ar causa inflamação dos brônquios, que ficam mais estreitos e com isso a passagem do ar fica mais difícil, provocando a “chiadeira” e a falta de ar. Muitas vezes, esses quadros evoluem para a pneumonia; o material particulado fino produzido nas queimadas é capaz de penetrar nos brônquios causando a sua inflamação (bronquite), que pode evoluir para a pneumonia (MANÇO  2006c).

      Entre janeiro de 2004 e setembro de 2005, a pastoral dos migrantes de São Paulo registrou treze (13) mortes de trabalhadores nos canaviais da região de Ribeirão Preto. Essas mortes, ocorreram durante ou imediatamente após a jornada de trabalho. Antes de morrer, os trabalhadores apresentaram câimbras, tonturas, dores de cabeça, e em alguns casos, sangramento nasal. Os atestados de óbito registram parada cardíaca e respiratória como principal causa das mortes (MENDONÇA  ,2006d).
  
4- O processo de mecanização do corte de Cana-de-Açucar 

      O plantio e a colheita da cana são feitos praticamente da mesma forma há cinqüenta (50) anos. Não se investe na melhora tecnológica ou das condições de trabalho, apenas em diminuir os custos e aumentar os lucros. Há condições para se desenvolver máquinas que entrem nas áreas que hoje são consideradas não mecanizáveis, mas se não houver uma lei obrigando, ninguém vai investir, afirma Maria Luiza Mendonça, jornalista e diretora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

      Em 6 de agosto de 1997, por decreto do Estado de São Paulo, deu-se um prazo de oito (8) anos nas áreas mecanizáveis e de quinze (15) anos nas restantes para proibir a queima da cana para o corte. Isto tem provocado fortes discussões ao redor do número de trabalhadores que ficarão sem postos de trabalho e as conseqüências sociais correspondentes. Finalmente em março de 2006 este  prazo foi aumentado até vinte (20) anos (LORA  2000c).

      As colheitadeiras funcionam em áreas planas e contínuas, mas causa maior compactação do solo e prejudicam as mudas que deveriam rebrotar. A mecanização gera superexploração do trabalho porque cria novas exigências como o corte rente ao solo (para maior aproveitamento da sacarose) e a ponteira da cana bem aparada. Isso aumenta o esforço dos trabalhadores e a jornada de trabalho. Com a mecanização do setor, foi transferido para os trabalhadores o corte da cana em condições mais difíceis onde o terreno não é plano, o plantio é mais irregular e a cana é de pior qualidade.

      Porém a colheita da cana mecanizada não só aumenta o rendimento operacional do procedimento como também reduz seu impacto ambiental, por dispensar a queima de resíduos.

      A colheita manual, por sua vez, faz uso do fogo para aumentar a eficiência da operação. Por permitir em maior acesso à cultura, a queima da palhada (resíduo do processo de colheita, que inclui a palha e a ponteira da cana) dobra a quantidade média de cana cortada por um trabalhador, que é de seis toneladas por dia. Apesar dessa vantagem, o processo de queima causa vários problemas, como liberação de gases que contribuem para o efeito estufa e fuligem, o qual é o causador do incômodo para a população local (FURTADO  2002).

      Apesar das inúmeras vantagens quanto à mecanização, terrenos com alta declividade e certas variedades de cana também não são favoráveis à colheita mecanizada, além do que, do ponto de vista social, a colheita mecanizada pode causar grande desemprego, já que uma colhedora é capaz de substituir oitenta (80) trabalhadores por dia.
  
5- Como a Fisioterapia pode intervir

      Nesse caso, como na maioria, a solução para evitar ou reduzir os problemas respiratórios seria a retirada do fator causador, ou seja, não realizar a queima da cana e conseqüente emissão de poluentes, porém a problemática vai muito além disso, já que envolve outros aspectos.

      Desse modo, não havendo a possibilidade de retirar o fator causal, a maneira de se intervir para evitar ou amenizar as conseqüências para a população exposta seria agir diretamente na patologia, esteja ela instalada ou não.

      A fisioterapia dispõe de recursos e procedimentos que podem reduzir os sintomas causados pela poluição provocada pela fuligem. São diversos os sintomas produzidos como irritação dos olhos, nariz e garganta. Há a opção de se aplicar a aerossolterapia  (inalação), uma suspensão de gotículas de líquidos ou partículas sólidas num meio gasoso. Este facilita a higiene brônquica, condiciona o ar inspirado e oferece medicação.

      Na higiene brônquica, os aerossóis têm como objetivo principais hidratar as secreções retidas e viscosas, melhorar a eficácia da tosse, restaurar e manter a função normal do sistema mucociliar (AZEREDO 2006).

      Para as patologias já instaladas como bronquite crônica, enfisema, pneumonia, a fisioterapia intervirá diretamente de acordo com as características de cada uma promovendo higiene brônquica, reexpansão, fortalecimento da musculatura respiratória conforme a necessidade apresentada.
  
6- Conclusão

     Conclui-se que, a indústria da cana, junto com seu real crescimento, trouxe sérias conseqüências para o País.

     Para que a cana chegue na indústria, precisa ser colhida e não tem sido feito muito para melhorar a situação dos trabalhadores que exercem essa função. No intuito de facilitar o corte e maior rendimento do trabalho /dia a cana deve ser queimada e esse é o maior fator de poluição ambiental e o motivo de diversas patologias, que são causadas exatamente pela fuligem liberada na queima.

     Porém a solução encontrada e tão questionada, a mecanização, traz consigo a substituição de uma média de oitenta (80) trabalhadores, daí surge um outro problema, que afeta a maioria dos setores no País: o desemprego.

     Surge, desta forma, uma questão preocupante (já que o Brasil não dá muitas possibilidades e garantia de remanejamento de função), seria tolerável a degradação do solo e aumento do agravo à saúde pela poluição em respeito ao trabalho? O que  seria de maior importância, visto que os trabalhadores rurais já exercem essa função por não terem outras possibilidades.

     Desta forma conclui-se que é de conhecimento e inquestionável as diversas conseqüências que a queima da cana-de-açúcar  produz para a população em geral nas proximidades e principalmente para os trabalhadores que tem maior contato com a fuligem produzida, porém ,também o é, a respeito das poucas possibilidades que os mesmos trabalhadores possuem, sendo a mecanização, uma solução plausível, porém  no que diz respeito somente ao primeiro.

Fonte: RevistaFisioBrasil
 
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